Filmar ação policial é legítimo e não deve implicar consequências

A filmagem de ações policiais tem se tornado prática comum com o avanço tecnológico. Com isso, tem se mostrado necessário discorrer sobre as eventuais consequências e quanto à própria legalidade dessa atitude.

Alguns policiais têm se sentido incomodados com essa medida, frequentemente alegando violação do direito de imagem e obrigando as pessoas a pararem de filmar ou a apagarem a gravação realizada. No entanto, não é correta essa atitude.Filmar ação policial.jpg

Os atos administrativos são regidos pelo princípio da publicidade. A regra, portanto, é que o Estado e os agentes que o representam devam satisfação do exercício de sua função pública. O sigilo é exceção e deve estar lastreada por justificativa idônea.

As ações policiais, principalmente as que decorrem do policiamento ostensivo realizado nas ruas e aberto ao público, favorecem o ambiente de escrutínio popular, o que pode ser feito por filmagem e outros meios de registro.

A pessoa do policial, em seu ambiente privado e fora do exercício da função, como qualquer indivíduo, tem o seu direito à privacidade garantido, devendo ser respeitado. No entanto, em atuação no ambiente público, não há expectativa de privacidade. Ao contrário, deve prevalecer o interesse público de que os atos praticados por agentes do Estado podem e devem ser submetidos à vigilância popular.

A divulgação das imagens também é legítima, não havendo nenhum dispositivo legal que o impeça.

Poderia o policial apreender o celular de alguém que filmou uma operação policial, como, por exemplo, uma abordagem de um suspeito?

A resposta para essa pergunta não é tão simples e sequer a legislação nos fornece elementos claros o suficiente para uma resposta imediata.

O Código de Processo Penal define as faculdades e os deveres do policial quanto à busca domiciliar e pessoal, sendo mais explícita na busca domiciliar. O art. 240 § 1º, alínea “h”, orienta os policiais a “colher qualquer elemento de convicção” no momento da busca domiciliar, o que usualmente é interpretado também como válido para as buscas pessoais.

O texto legal é demasiado abrangente, o que nos obriga a fazer uma interpretação que permita uma consonância com o texto constitucional.

Quanto aos celulares das pessoas presas em flagrante delito, havendo necessidade, os policiais podem apreendê-lo para posterior perícia devidamente autorizada judicialmente, como já se defendeu em outra oportunidade. (http://www.conjur.com.br/2017-fev-06/rafael-garcia-acesso-dados-celular-exige-autorizacao-judicial)

E quanto aos celulares de vítimas ou testemunhas de crimes?

Primeiramente, vale dizer que se da situação não houve prisão em flagrante ou a prática de um crime, não é permitido ao policial apreender quaisquer itens pessoais dos presentes. Afinal, não há prova alguma no celular. Como dito acima, é perfeitamente legítima a prática de filmar ações policiais.

Ok, e quando houver a filmagem de uma abordagem que antecede uma prisão em flagrante, o policial poderá apreender o celular da testemunha?

Vamos diferenciar aqui duas situações. A primeira é a hipótese de que a filmagem não tenha captado imagens da prática do crime, mas tão somente da ação policial. Nesse caso, a filmagem não tem qualquer valor de prova do crime. O que se pode haver é a possibilidade de avaliação da legalidade da ação policial. Nessa hipótese, não há de se falar em apreensão do aparelho, como já dito acima.

Na segunda hipótese, a filmagem foi capaz de captar não só a ação policial, mas também prova da prática delitiva, como o encontro de objetos frutos de crime, como itens roubados a posse de entorpecentes ilícitos.

Nesse caso, podemos interpretar que o policial, amparado pelo CPP (no dispositivo acima mostrado), teria a faculdade de apreender o celular para perícia posterior. No entanto, entendo não ser a medida mais adequada, por violar o direito fundamental da privacidade. O celular é um dispositivo capaz de armazenar grande quantidade de material íntimo, não somente de seu proprietário, mas também de terceiros.

Diante dessa situação, o policial poderá requerer à testemunha que forneça o material coletado, sem a necessidade de devassar todo o conteúdo do celular.

Em nenhuma hipótese pode haver “detenção” ou “condução” da testemunha. Isso é prática abusiva que corresponde ao crime de abuso de autoridade do art. 4º, a, da Lei nº 4.898/65.

Art. 4º Constitui também abuso de autoridade:
a) ordenar ou executar medida privativa da liberdade individual, sem as formalidades legais ou com abuso de poder;

Não existe condução forçada à delegacia a não ser nas hipóteses constitucionais: flagrante delito ou por ordem do juiz.

O policial deve se limitar a requerer os documentos e informações necessárias à identificação da testemunha para, somente então, requerer sua intimação para depoimento.

O não atendimento dessa ordem policial não configura o crime de desobediência, mas da contravenção penal do art. 68 da Lei nº 3.688/41:

 Art. 68. Recusar à autoridade, quando por esta, justificadamente solicitados ou exigidos, dados ou indicações concernentes à própria identidade, estado, profissão, domicílio e residência:
        Pena – multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis.
        Parágrafo único. Incorre na pena de prisão simples, de um a seis meses, e multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis, se o fato não constitue infração penal mais grave, quem, nas mesmas circunstâncias, faz declarações inverídicas a respeito de sua identidade pessoal, estado, profissão, domicílio e residência.

É claro que o policial poderá requerer à testemunha acompanhar os policiais à delegacia para imediato depoimento, mas, por estarmos (em tese) em uma sociedade democrática e livre, a pessoa poderá se negar.

Se, posteriormente, devidamente intimada a depor, a testemunha não comparece à delegacia, também é incabível o flagrante por desobediência.

Isso porque o crime de desobediência deve ser invocado somente para os casos em que a lei não prevê uma punição ou uma medida capaz de obrigar o cumprimento da ordem legal. No caso, negando-se a comparecer, a testemunha pode estar sujeita à condução coercitiva.

A condução coercitiva pode ser invocada quando a testemunha tenha se negado pelo menos uma vez a comparecer para depor, ocasião em que policiais podem forçar sua ida a delegacia ou a juízo, por força do art. 218 do CPP.

Embora seja minoria, entendo que somente o juiz pode determinar a condução coercitiva, vez que se trata de restrição do direito de ir e vir, sendo verdadeira violação, ainda que pontual, da liberdade individual.

Ainda que se entenda ser possível ao delegado requerer a condução coercitiva, vale dizer que jamais cabe a um agente de polícia ou policial militar determinar tal medida.

A testemunha, em tese, poderá dispor do material produzido, inclusive para destruí-lo, não havendo o crime de “obstrução de justiça”, como os leigos costumam mencionar.

Forçando muito a barra, a testemunha que destruir as provas contidas no celular pode estar sujeita ao crime do art. 21 da Lei nº 12.850/13.

Art. 21.  Recusar ou omitir dados cadastrais, registros, documentos e informações requisitadas pelo juiz, Ministério Público ou delegado de polícia, no curso de investigação ou do processo:
Pena – reclusão, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa.

No entanto, além da péssima técnica legislativa na sua definição, entendo que esse crime se refere apenas à omissão ou recusa de apresentar as informações já requisitadas pela autoridade no curso de investigação ou processo referente à organização criminosa.

Ficou faltando algo?

Até mais.

Revista Vexatória gera nulidade

Como tenho dito, sentença boa merece ser lida e relida.

Essa é pro pessoal entender como funciona o direito penal.

A nulidade é a forma que temos de desencorajar medidas que contrariam a lei, como a revista vexatória.

No caso, a mulher submetida à revista vexatória foi encontrada com um celular na vagina. O juiz Icaro de Almeida Matos reconheceu a ilicitude da revista e desconsiderou a prova produzida, absolvendo a ré. Correto.

Mais vale essa ré solta do que 99 inocentes submetidas a esse abuso. Caso considerasse legal, a prática infeliz da revista vexatória seria tida como regra e meio de produção de prova, o que é absurdo em um Estado democrático de direito.

A ilicitude é um recado claro: Agentes, parem de fazer isso.

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A infiltração de agentes na internet: Comentários à nova Lei nº 13.441/17

No dia 09 de maio, foi publicada uma nova lei, de nº 13.441/17, que regulamenta a infiltração de agentes de polícia na internet com o fim de investigar crimes contra a dignidade sexual de criança e de adolescente.

A lei, de modo geral, apresenta-se nos moldes da lei de interceptações telefônicas, demonstrando um padrão normativo infraconstitucional dos limites da violação estatal aos princípios fundamentais da intimidade e da vida privada.

A regulamentação da investigação policial envolvendo os princípios constitucionais da vida privada e da intimidade é de suma importância, principalmente quando, com muita frequência, a falta de um regramento legal é tomada como permissão tácita ampla e irrestrita, deixando a proteção constitucional à deriva.

Aproveitando a promulgação recente, partimos para alguns comentários iniciais sobre a lei, que pode ser alvo de questões a serem discutidas pela doutrina e pelos tribunais.

 

  1. Limites do seu âmbito normativo

Em primeiro lugar, é importante restringir o âmbito normativo da lei. Ela não veio para regulamentar a infiltração policial na internet para todos os crimes. A lei se limita apenas aos crimes sexuais envolvendo crianças e adolescente.

É preciso apontar que não se prepõe a lei a regulamentar a infiltração policial na internet em crimes hediondos, em crimes com pena de reclusão máxima superior à 4 anos etc. Assim, eventual utilização da lei para investigações em crimes de outra natureza ofende seu âmbito normativo, não devendo ocorrer.

Tem-se que os crimes sexuais envolvendo crianças e adolescentes são da mais grave espécie e de maior repúdio social. Ampliar a flexibilização de direitos fundamentais e a esfera de atuação policial para outros crimes é não compreender a lógica por trás da lei e ignorar a força normativa dos princípios constitucionais.

Ora, se o legislador previu dessa forma a flexibilização dos direitos fundamentais da privacidade e da intimidade para esses crimes gravíssimos, é evidente que a flexibilização desses direitos deve ser menor para crimes de menor gravidade.

Inviável, portanto, respaldar-se na lei para autorizar infiltração em crimes de natureza diversa, especialmente de menor gravidade.

Ainda no âmbito da amplitude normativa da lei, deve-se atentar para o fato de que certos crimes apresentados no rol do inserido art. 190-A ao ECA (Lei nº 8.069/90) não necessariamente envolvem crianças ou adolescentes como vítimas.

O crime do art. 154-A do Código Penal, por exemplo, sequer está diretamente vinculado à proteção de crianças e adolescentes, embora sejam potenciais vítimas do crime. O próprio estupro de vulnerável, art. 217-A do CP, não necessariamente tem criança e adolescente como vítima, visto a condição de vulnerável por equiparação do §1º.

Assim, como a lei veio expressamente para regulamentar a infiltração policial em crimes sexuais na internet que envolvem crianças e adolescentes, faz-se necessário atentar-se não só para o rol taxativo no caput do art. 190-A do ECA. Esse critério deve estar necessariamente associado ao pressuposto teleológico da lei, qual seja, o envolvimento de criança e adolescente como possível vítima de crime sexual na internet.

Assim, sendo claro, é ilegal a infiltração policial por internet para investigar crimes, ainda que presentes no rol do art. 190-A do ECA, se não houver envolvimento de criança e adolescente como possível vítima.

 

  1. Do prazo máximo de infiltração

Merece destaque a previsão legal de um período máximo para a infiltração, de 720 dias (art. 190-A, III), ou dois anos.

A previsão de uma prazo máximo é bem-vinda, uma vez que sua ausência na lei de interceptações telefônicas refletiu num quadro de insegurança jurídica e dissenso doutrinário. No entanto, o prazo de 720 dias é por demais extenso, devendo ser aplicado com cautela pelo juiz que deverá autorizar a medida.

Vale lembrar que o acesso à vida íntima por meios eletrônicos e internet pode ser devastadora. No contexto tecnológico atual, a esfera individual mais íntima, inclusive aqueles comportamentos que se esconde até mesmo do próprio cônjuge, pode ser encontrada e amplamente debulhada nos registros de computadores.

Assim, a infiltração policial que não obtiver qualquer êxito nos primeiros meses, ou mesmo nos primeiros 180 dias, passa a valer-se justamente como fundamentação para a volta do status quo de proteção constitucional.

A investigação sem êxito em seus prazos iniciais torna inidônea a fundamentação judicial para renovação da medida, exceto quando, por outros meios, surjam novas evidências que corroborem às evidências que serviram de fundamento para a autorização inicial.

Em contrapartida, havendo êxito na investigação, objetivando uma colheita mais robusta e substancial de provas, baseando-se o juízo nos relatórios policiais previstos nos §1º e §2º do art. 190-A, o prazo poderá ser renovado até seu limite de 720 dias, que jamais poderá ser excedido.

Deve-se evitar, no entanto, fundamentações judiciais genéricas e indeterminadas. O Estado, representado na força policial, ao ferir diretamente direitos constitucionais, não pode valer-se de fundamentações frouxas e vagas, sob pena de o Judiciário consubstanciar o crescimento de um Estado autoritário e antidemocrático.

 

  1. Da serendipidade e dos excessos praticados

O artigo 190-C e seu parágrafo único, por sua vez, garante a proteção devida ao policial, que não é ilimitada, mas restrita à finalidade da investigação, devendo este responder pelos excessos praticados.

Vale lembrar que a infiltração do policial é condicionada às finalidades e fundamentos que a autorizaram, sempre restringidas a desvendar práticas criminosas de cunho sexual envolvendo crianças e adolescentes.

Dessa forma, ocorrendo o fenômeno da serendipidade de 2º grau, quando não há conexão do crime principal com o encontrado, não pode o policial valer-se da sua posição de infiltrado para investigar o novo crime, principalmente quando este não estiver relacionado a crimes sexuais contra crianças e adolescentes. Essa prática deve ser considerada abusiva e as provas fortuitas encontradas sem conexão com o crime principal devem ser declaradas ilícitas, ainda que possam ensejar fundamento autorizador para instauração de nova investigação independente.

No mesmo sentido, vindo o policial infiltrado a descobrir novos autores de práticas delitivas previstas na lei, deve haver imediata ciência do juízo, visto que a descrição do nome dos investigados é critério objetivo explicitado no inciso II do art. 190-A para o início da investigação. Assim, o juiz poderá apenas acrescer novo investigado à autorização previamente concedida ou autorizar o início de nova investigação caso os crimes não encontrem conexão entre si.

Nesse cenário, é importante lembrar que qualquer espécie de investigação exploratória é ilegal, não encontrando respaldo algum nas leis e muito menos na Constituição. Assim, toda e qualquer investigação deve ser motivada por alguma suspeita concreta, baseada em indícios que sejam capazes de indicar um caminho e um alvo a ser seguido.

 

  1. Da impossibilidade de descarte dos registros dos atos praticados

O art. 190-E visa a garantir o que deveria ser a prática para toda e qualquer investigação policial. “Art. 190-E. Concluída a investigação, todos os atos eletrônicos praticados durante a operação deverão ser registrados, gravados, armazenados e encaminhados ao juiz e ao Ministério Público, juntamente com relatório circunstanciado“.

A previsão visa a não somente proteger o policial, que terá todos os seus atos praticados devidamente analisados e validados pelo Judiciário, como visa a também garantir o contraditório e a ampla defesa. Sabe-se que o contraditório diferido é medida que se impõe em casos de infiltração policial. No entanto, a ausência dos registros da atividade policial impedem qualquer tipo de defesa e contraditório, ensejando a nulidade absoluta das provas coletadas.

Assim, acertou o legislador ao não conceder às autoridades policiais o faculdade de gerir a prova produzida, impedindo  que se relate e registre apenas o que interessa a essa instância. Todos os atos devem estar registrados para que o devido processo legal se complete e seja garantida à defesa exercer o contraditório e a ampla defesa.

Embora a lei não faça previsão expressa, acredito que a interpretação mais correta é a de que não é possível a realização de qualquer descarte dos registros feitos, pelo menos até manifestação da defesa após acesso amplo e irrestrito aos produtos da investigação já em sede processual.

A lei, mais do que avanços pontuais em matéria processual penal, demonstra rigor e boa técnica legislativa, unindo garantias processuais de natureza constitucional com o interesse público de combater os terríveis crimes sexuais contra crianças perpetrados na internet.

Por que é mais fácil soltar um homicida que um traficante? (2)

Eis que nos encontramos no fim dessa história.

No primeiro post, critiquei a fundamentação do juízo por decretar a preventiva dos acusados em tráfico de drogas. “https://deusgarcia.wordpress.com/2017/06/09/por-que-e-mais-facil-soltar-um-homicida-que-um-traficante/

O juiz havia dito que a CF/88 vedava a liberdade provisória para esse crime. Nem sabia que ainda havia juízes que se orientavam dessa forma…

Ao contrário, a CF instaura o sistema acusatório, em que a regra é a presunção de inocência, cujo objetivo principal é justamente impedir a prisão de inocentes. Nada mais injusto que um inocente preso. Nada mais efetivo para os processos de criminalização.

A audiência, realizada ontem, deixou cristalino que os réus eram inocentes. Hoje, (ainda fez questão de deixar os inocentes mais um dia preso) resolveu soltá-los, dada as provas produzidas.

Resultado. Mais um pobre ficou preso alguns meses, mesmo sendo inocente.

O nome disso é punição judicial. Gestão da pobreza.

Ficou claro a importância da presunção de inocência?